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Li todos os depoimentos, sofri,
chorei e acho que pela primeira vez me senti "em casa". As dores são
tão parecidas, as experiências, a vida! Por muitos anos antes de deitar sempre
me perguntei (ainda faço isso): O que há de errado em mim?! Por que a vida
parece extremamente difícil de ser vivida?
Fui a muitos psicólogos e a um
neurologista. Para minha infelicidade, ninguém nunca me falou sobre o DDA. O
diagnóstico sempre foi claro: Baixa auto-estima, insegurança, tendência á
depressão e uma dura história de vida. Somando, tivemos um resultado
convincente. Eu precisava de terapia, tempo e Deus para fazer um milagre.
Hoje, com 28 anos e depois de
tantas derrotas, a internet me apresentou o DDA e "de quebra" ainda
deu o telefone de médicos especializados no assunto em minha cidade. Não tive
dúvidas! Vi uma luz, uma possibilidade de entender o porquê me pergunto todas
as noites se há algo errado em mim. A médica solicitou exames, testes
neurológicos e psicológicos. Pronto! Descobrimos que o DDA estava confirmado e
acompanhado de alguns problemas cognitivos que me fizeram sofrer por tantos
anos. E para minha surpresa, eu não tinha o QI abaixo da média. Ufa! Foi uma
grande descoberta.
No meu caso, acredito que minha
história de vida tenha contribuído diretamente nas minhas dificuldades, pois
não posso atribuir a culpa apenas ao DDA. Isso, pelo menos, consigo enxergar
claramente.
Pois bem, como quase todos os
portadores do "tal" DDA, não termino o que faço, vivo numa ansiedade
constante. Concentração? Essa palavra é até difícil de falar! Não sei como
terminei meu curso superior e minha pós-graduação. Simplesmente, não me
concentro em qualquer leitura, nem mesmo uma página consigo terminar. Nas
provas? Só mesmo o milagre aparecendo novamente! Ah, e minha memória? Essa nem
comento, ela não existe. Minha auto-estima, de 0 a 10, posso classificá-la
como -1. É isso mesmo, -1. Não confio mesmo em mim! Minha mente é
desorganizada. No trabalho muitas vezes não acompanho uma discussão, fico
confusa, desatenta. E sabemos o nome que todas as pessoas dão a essas
características. Não sei como faço meu trabalho bem feito, os clientes me
elogiam sempre, para minha salvação, pois internamente, com meus colegas e
chefes, sou um fracasso.
Fico pensando... O que existe
dentro da minha cabeça? Praticamente não consigo ler nada, não memorizo.
Aulas, palestras, mesmo a televisão é mesmo uma missão impossível. Me sinto
um saco vazio, cheio de ar e prestes a estourar e fazer um grande estrago. E o
pior, minha família, aí que família, 100% dos componentes são intelectuais,
valorizam a mente e a informação como ouro. E eu? Eu fujo dos encontros, me
fecho, pois além do saco vazio, também em sinto uma cadeira vazia. Muitas
vezes quero me comunicar, rir, aparecer (para completar sou vaidosa, gosto de
ser valorizada), mas não posso. Não me sinto capaz.
Próxima semana vou começar a
tomar o remédio, uma psicóloga para cuidar do emocional e outra para
reestruturar minha mente desorganizada. Juntando tudo, estou muito esperançosa
que esse "kit" mude minha vida com o passar do tempo.
Sinceramente, a vida é dura
para mim. Parece que não sou desse mundo e que existe um outro paralelo dentro
de mim que nunca ninguém conheceu. Um mundo criado, uma fuga para minhas
desilusões. Mas não tenho dúvidas, que deixei um espacinho nele reservado
para o resultado positivo. Um fim feliz. Lá estão a determinação, a força,
a vontade sem fim. Eu quero muito vencer, muito. Essa grande dor no meu peito,
que arde sem para, 24 horas por dia, que me perturba e me destrói sem limite,
um dia irá para bem longe. Isso vai acontecer, se Deus quiser, porque eu vou
acabar com ela, vou vencer. Isso, ao menos, não tenho dúvidas.
INSPIRAÇÃO MOFADA
Com enfado, sinto o cheiro do mofo. Inspiro
mais forte. O tédio invade. Entra pelas narinas e escorre na pele. Transpiro
terror. Exalo agonia. É inércia do nada que não dá folga. Não se
interrompe, apenas corrompe. Uso a almofada como salva-vida nesse marasmo.
Dentro dessa modorra que castiga, não vejo horizonte. Vejo as janelas fechadas
no quarto escuro. Abro-as e vislumbro o nada em um só desalento. Volto à
escuridão que se repete em minha vida Deito, pois estou exausta de nada fazer.
A mente enferrujada que não quer pensar, Não para fazê-lo. Enlouquece em meio
a tanta desordem. Perde-se como esse registro se perderá, Salvo, seja salvo por
uma pasta amarela. Dentro dela há uma esperança de organização infante.
Inspiração crescente poderá crescer não se sabe para onde. Hoje vazia, a
virgem pasta amarela, recebe incólume, Esse antigo e velho anseio inacabado.
INSPIRAÇÃO MOFADA, meu poema lema do DDA (ou TDAH),
abrirá esse depoimento. Este poema que está publicado na quarta antologia da
AJEB (Associação das jornalistas e escritoras do Brasil), de que faço parte,
contempla sensações, ora fugazes, ora duradouras, relativas ao distúrbio do déficit
de atenção. Mas vejam que curioso! Escrevi o poema em 1997. Pincelei-o com
tintas presentes em minha alma naquele momento, mas que hoje vejo que são as
cores do DDA (ou TDAH ou Déficit de Atenção ou Hiperatividade), sigla que desconhecia até o mês passado, quando me deparei com
uma pequena nota científica na revista VEJA, da psicóloga Cleide Partel.
Na realidade, quando escrevi o poema estava em
uma de minhas piores crises de depressão, acompanhada de um recém diagnóstico
de um outro distúrbio estranho: a Fibromialgia, na época ainda não tinha sido
descrita a etiologia desse distúrbio ( disfunção).. Estava em um barco,
afundando com dores no corpo físico e dores na alma, sem remos e sem vontade de
nadar.
.Mas momentos passam e tanto a depressão
bipolar (também, perversamente conhecida como PMD), como a Fibromialgia se
volatizaram ( mas não se foram) sob os adequados tratamentos a que me submeto
até hoje.
Restaram alguns ingredientes constantes, para
os quais ainda não encontrei tratamento: a falta de foco, de atenção, de
concentração e de organização, temperados com uma boa pitada de preguiça.
Tenho me prejudicado muito com essas "faltas". Perco tempo, perco
chave, perco tudo. Passo vergonha, me atraso, me comprometo, me confundo, não
me aprofundo.
Foi nessas circunstâncias que procurei Dra
Cleide/Dr. Rubens.
Descreverei agora, um dia na vida do DDA (ou Déficit de Atenção com ou sem Hiperatividade).
Marquei com a Luciana, secretária do Dr.
Rubens, uma consulta para às 10:00 de uma tal sexta feira. Não poderia
esquecer. Coloquei bilhete na geladeira, na escova de dente, no meu local de
trabalho, pois se marco na agenda, corro o risco de esquecê-la. Tenho que
afixar os recadinhos para mim mesma, em lugares pelos quais eu vá passar e
olhar. Mesmo assim, as vezes olho e não vejo.
Ligo para Daniela, logo de manhã, perguntando
se o Dr. Rubens estava atrasado ou não. Disse-me que não. Gelou minha barriga,
pois eu não poderia me atrasar. Pego o endereço do consultório e vou para o
trabalho. No caminho, me dou conta que esqueci o celular. Eu que estava
torcendo, desde cedo, para que eu não viesse a precisar do aparelho, me
enganei. Doce ilusão.
Após uma reunião densa, no trabalho, em que
eu me afligia com o passar do tempo e não conseguia me concentrar, nem no que
discutíamos, nem no fato de não saber onde tinha colocado o pequeno pedaço de
papel com o endereço do médico, que eu iria precisar para chegar até lá'.
Torturante, angustiante minha paisagem interna. Encerrada a reunião, saio
correndo para pegar minha bolsa, com a chave do carro. É óbvio que quando
chego no carro, não acho a chave que havia deixado no escritório e que por
conseguinte, me faria atrasar mais alguns minutos para ir buscá-la.
No momento seguinte, já em direção à rua
Sampaio Vidal, percebo que não peguei o pedacinho de papel, que me contaria o
número dessa rua, ao qual eu deveria me dirigir. Abro a bolsa, para pegar a
agenda, com o telefone, para que Daniela, me refrescasse a memória, me dizendo
o número que eu tinha lido no papel, mas que apesar de me lembrar da posição
e da minha horrível letra escrita nele, não me lembrava do que exatamente,
estava escrito.
Tive a brilhante idéia de ir e voltar nessa
rua, procurando alguma placa com o nome da clínica. Nada de placa. Nessa
Clínica não tem placa na frente.
Fui em direção à avenida Faria Lima. Um
quarteirão antes de chegar nela, parei em uma padaria e pedi ao padeiro que me
ligasse para Daniela, para finalmente, eu pegar endereço completo.
Chegando na ante sala, sentei-me após pagar os
honorários do médico e lhe escrevi uma dedicatória no livro com o qual lhe
faria um presente. Coloquei dentro de um dos dois sacos plásticos que carregava
comigo, com vasta e pesada bibliografia que levo para me dar segurança.
Entro na sala, Dr. Rubens olha-me de soslaio.
Devia estar pensando, "o que essa louca traz dentro desses plásticos
gigantescos e desajeitados?"
Bem, enquanto eu desatava a falar, continuava
me esforçando, mexendo na papelada dentro das sacolas. Senti a necessidade de
justificar meu jeito atrapalhado de ser e comentei: "Acho que pirei, pois
acabei de dedicar um livro meu para você, e não consigo achar. Será que
deixei no banheiro?" Aí, eu pensei melhor e lembrei que eu não tinha ido
ao banheiro. Mas tudo bem, "faz parte" do quadro. Ele comentou que eu
era DDA (ou TDAH ou Déficit de Atenção ou Hiperatividade) típica.
Tivemos uma excelente consulta. Ele me escutou,
pacientemente, pois, cheguei com uma lista de defeitos meus, acompanhada por uma
outra descrição como esta, acerca de cinco minutos quaisquer em minha vida.
Foi assim, que eu D. (42), engenheira, com
mestrado em Ecologia e Recursos Naturais, ambientalista, poeta e escritora fui
diagnosticada como uma DDA (ou TDAH), típica.
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