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Fiquei, ao mesmo tempo, feliz e deprimido por
só ter descoberto quase aos 50 anos que grande parte dos problemas que
enfrentei e enfrento na vida são motivados por uma doença chamada
Hiperatividade. Lembro
que por volta dos 20 anos começava uma série de atividades e não levava
nenhuma adiante. Iniciava uma faculdade, depois me dedicava a desenhar, tentava o
teatro, largava vários cursos de inglês, ia me aventurar
na Europa, começava a trabalhar em publicidade, até que um crítico de desenho,
um dia me criticou sobre isso "-Você começa um
monte de coisas e não termina nenhuma. Decida o que quer fazer e siga em frente!
". Isso faz quase 30 anos e ainda guardo com muita clareza na memória. Mesmo
assim, continuo repetindo o erro. De fato, tem sido assim a vida toda. Nenhuma faculdade
terminada, apesar de saber da importância. Nenhum curso
de inglês terminado, mesmo sabendo da necessidade. Noções de francês, o
suficiente para me virar bem, mas sem ir até o fim. Dedicação durante algum
tempo a natação, sem treinamento adequado e, mesmo ganhando a única
competição que participei, abandonada repentinamente. Iniciei no tênis, sem
aulas, é claro, joguei durante 10 anos, parei por 10 anos, voltei, agüentei um
mês de aulas, e continuo jogando, quem sabe por mais 10 anos? Um fato a ser
analisado: o DDA (ou TDAH) só pratica esportes individuais? Acho que sim, uma vez que
não é social, não gosta de ouvir regras, não aceita um chefe ( parceiro), não se acha no nível dos
outros. Descubra isso. Início de uma brilhante
carreira profissional em grandes empresas, truncada pela "necessidade
compulsiva, ansiosa e tempestiva" de ter a própria empresa. E, no entanto,
quando a empresa começa a deslanchar, a decolar, vem a vontade de abandonar a
própria empresa. E a abandono!Um casamento de anos rompido de maneira
tempestiva, surpreendendo a todos. A falta total de planejamento e objetivos na
vida, sendo levado totalmente pela impulsividade. Envolvimento com cinema,
teatro, desenho, mas de maneira superficial. O prazer de escrever, mas a
incapacidade de escrever romances, Longas-metragens, peças de teatro. A
ansiedade, a inquietação, a falta de "planejamento cerebral" me
levam a criar tudo "curto". Desenhos, filmes
publicitários de 30", livros de contos curtos, etc. Escrever um romance necessita
paciência, planejamento, organização e controle da ansiedade. Parodiando o
besouro, que "sem saber que é aerodinamicamente incapaz de voar, voa, " sem saber que tinha
Déficit de Atenção ou Hiperatividade), consegui me virar bem. Por que? Acho que os
sintomas de "baixa auto-estima" e "medo do fracasso" são
tão grandes em mim que dediquei 10 vezes mais energia que o necessário e que
qualquer outra pessoa precisaria dedicar para vencer. No entanto, apesar de ter
conquistado a maioria dos meus objetivos, devido a essa perseverança obstinada
ou esse medo exacerbado, e ter atingido uma certa estabilidade, as sensações
de tristeza e depressão me acompanham. Como digo, estou sempre macambúzio. Jamais aproveito uma
vitória, jamais relaxo no sucesso, jamais de permito
baixar a guarda. Acho sempre que, dias piores virão. Não tenho, nem tive, nenhum
vício, tão comum nos pacientes de DDA. Ou tenho algum que desconheço?
Leio muito, apesar de ter dificuldades em me concentrar no que leio e, muitas
vezes, me pego divagando durante a leitura, mas sempre achei que isso era comum
e todo mundo fosse assim. Esse devaneio durante a leitura me impede de ler
qualquer assunto sobre neurolingüística, auto-ajuda, ou seja, livros que
necessitam uma concentração maior a cada página, a cada pensamento. Hoje vejo
porque era incapaz de entender na escola problemas de álgebra. Porque era
impossível acompanhar o professor quando ele explicava fórmulas e exercícios
que necessitavam de um pensamento cartesiano. Meu maior sofrimento hoje é no
campo da sociabilidade. A capacidade que tenho de falar sem pensar, ofender sem
perceber, irritar o interlocutor, se mostrar impaciente ao ouvir os outros, teve
um custo absurdo na minha vida social, me deixando praticamente só. O que mais
me surpreende é que sempre fiz isso sem perceber, sem ter a menor noção do
mal que estava causando aos outros e a mim. Hoje fico feliz ao descobrir que
isso era causado pelo DDA (ou TDAH ou Déficit de Atenção ou Hiperatividade). Mas fico triste pois o mal está feito. Isso me
custou uma boa relação social com as pessoas e, nos empregos, fiz vários
inimigos, entre eles os próprios chefes que, só me suportaram por um bom tempo
por que eu realmente devia ser muito bom no que fazia. Mas como isso dificultou
as coisas para mim!Como poderia ter sido mais fácil se eu soubesse antes que
tinha DDA (ou TDAH) e tivesse controlado minha língua ferina. E a falta de diplomacia, de
paciência para negociar? Minhas explosões de raiva? Quantos bons negócios
não perdi por não ser diplomata? Quantos maus negócios não fiz por não ter
paciência de negociar? Quantos inimigos não criei pelas explosões de raiva? O
mais incrível, nas explosões, é que me preparo com antecedência, sei que
preciso me controlar, que a raiva não vai me levar a nada, que a conversa mansa
e calma vai ser o melhor, na hora "H" sobe de mim uma ira mais forte
que eu, incontrolável, que põe tudo a perder. Hoje o TDAH explica porque, tendo
dois filhos maravilhosos, uma saúde de ferro, uma vida confortável, uma boa
profissão, uma carreira de sucesso, estou sempre deprimido e triste. Explica
também a energia inesgotável, mas que poderia ser poupada se agisse de maneira
menos tempestuosa, mais planejado e organizado. Viveria menos estressado. Se
não fosse minha secretária, esqueceria de pagar as contas, teria todos os
documentos em bagunça. Vivo dependente da agenda para me lembrar das coisas
mais simples da vida. Tenho péssima letra. Não agüento filas. Odeio regras. Não suporto
chefes. Interrompo quem esta falando. Sou superficial. Me desligo
em palestras. Esqueço nomes, datas e fatos. O que comi no almoço, mesmo? Na
infância me machucava muito e quebrava tudo. Odeio a frustração. Não aceito o
não. As vezes me pergunto como posso ser inseguro e corajoso ao
mesmo tempo. Talvez porque o perigo seja uma boa adrenalina ou talvez a coragem
não seja "coragem" e sim resultado da impulsividade? Mas o DDA (ou TDAH)
também tem seu lado bom, não tem? Sou criativo, isso é indiscutível. Me
sinto sempre jovem. Tenho hiperatividade sexual. Brinco com meus filhos, sou
participativo. Corro riscos e assumo tanto o acerto como o fracasso. Muito bem. Tenho Déficit de Atenção ou
Hiperatividade. Isso explica a maioria das besteiras que fiz na vida. Mas as
besteiras estão aí, foram feitas, custaram muito caro, ainda pago por isso e
temo que continuarão a serem feitas, caso eu não me trate muito bem e me
policie 24 horas por dia. Já cheguei na meia idade mas ainda tenho muitos anos
pela frente. Como fazê-los mais suportáveis, mais fáceis e alegres de serem
vividos? Estou, ou o TDAH me deixou, muito cansado de ter gasto tanta energia
para fazer a mesma coisa que muitos fazem com facilidade. E aos 50 anos a
energia já não é a mesma para fazer, corrigir e corrigir e corrigir a mesma
coisa tantas vezes. OK, tenho DDA. Depois de tantos anos de análise finalmente
descubro que meus problemas não foram causados pelo meu pai, minha mãe, um
trauma de infância, nada disso. É uma doença. Ótimo. Não preciso mais
remoer meu passado em busca de relações maternais ou paternais. So, what? Como
evitar que as besteiras já feitas continuem a doer como chagas não
cicatrizadas? Como ser feliz, pois sei que as besteiras do passado já foram
feitas e o prejuízo está contabilizado?
Durante toda minha vida tive um
certo problema de concentração, acompanhado de uma enorme dificuldade de me
expressar, seja de forma oral ou escrita, mas principalmente oral. Não que seja
fácil escrever realmente não é mas é mais fácil que falar. Ultimamente o
fato de receber e enviar muitos e-mails tem me possibilitado exercitar um pouco
mais a minha escrita.
Bem, voltando ao assunto da
falta de concentração. Sempre fui chamado de "desligado", "no
mundo da lua", "problemático", "louco", algumas vezes
de "inteligência desperdiçada". Não estou muito certo da
conotação que cada pessoas davam à última classificação - se eu não
conseguia usá-la ou se outras pessoas não a percebiam - mas não importa, não
faz diferença. Vou descrever o que é, na minha experiência de vida,
concentração: é um estado de tormenta constante, com sons, imagens,
pensamentos, tudo tirando minha atenção de meus objetivos. O mínimo vacilo e
lá estou eu desviado de meus objetivos, algumas vezes sem ao menos lembrar-me
que objetivos eram.
Muitas vezes me diziam que eu
só não tentava me concentrar no que eu não gostava. Não era bem isso que
acontecia. Só posso dizer que me concentrar no que eu gosto é tão difícil
quanto no que eu não gosto. A diferença é que o que eu gosto me dá mais
força de vontade, uma vontade de lutar muito maior do que o que eu não gosto.
Mas a luta é a mesma. A vida inteira. O tempo todo.
Mas esta luta tem suas
compensações. Consigo ver dezenas de soluções alternativas para um problema
que me interessa e consigo fazer uma análise inicial de todas as alternativas
encontradas: viabilidade, dificuldade de execução, possibilidade de
conclusão, nível de esforço necessário, perfil das pessoas que deverão
trabalhar no projeto. Consigo me lembrar de todos os processos, conceitos, prós
e contras envolvidos na solução…
Só que não consigo passar
deste ponto. Não consigo terminar o projeto. Na verdade, não me lembro de já
ter terminado sozinho um projeto, nem profissional, nem pessoal.
Normalmente, não consigo
terminar nada, desde a leitura de um livro até a criação de um sistema em uma
linguagem de computador qualquer. Não consigo me ater a uma linguagem de
programação específica, como fazem muitos especialistas, e assim, nunca
consigo ser um especialista em nada, somente um generalista. Conhecer um pouco
de tudo pode ser bom, mas as vezes é necessário conhecer alguma coisa
bem.
Meu interesse por algo nunca
dura o suficiente para terminar nada: estudei trompete, depois flauta, depois
violão e nunca me tornei exímio instrumentista em nenhum deles, com a
exceção do trompete que abandonei depois de seis ou sete anos estudando,
graças à insistência de minha família. Não que eu não gostasse. Eu gosto
muito de tocar, mas não tinha paciência de ficar estudando alguma coisa por
muito tempo. Nunca terminei um curso de idiomas: estudei na escola três anos de
inglês, dois de francês, fiz cinco anos de inglês e quando cheguei no nível
Avançado I, abandonei. No curso de Ciência da Computação, apesar de ter
tirado nota entre 95 e 100 em algumas disciplinas consideradas difíceis, tive
problemas com outras, e cheguei a fazer certas disciplinas quatro vezes. Também
tranquei matrícula no curso de Serviço Social quando estava no terceiro
período. Tenho alguns projetos pessoais que tinham grande chance de dar certo
se não tivessem sido abandonados antes do fim.
No trabalho, isto, somado ao
fato de que tenho dificuldades de compreender ordens de chefes (por falta de
atenção), seguir planos, concluir tarefas simples e decidir sobe prioridades
de tarefas diferentes, tem me prejudicado muito. Muitas vezes dou prioridade a
tarefas que sei que não são prioritárias e deixo outras mais importantes de
lado.
Com estas dificuldades fico
constantemente ansioso. Ansioso por terminar uma tarefa que não acaba nunca.
Ansioso para iniciar um novo projeto. Ansioso por não conseguir terminá-lo.
Ansioso porque me vejo sem ação diante da pressão. Ansioso porque não
consigo na maioria das vezes sair deste estado de "não ação".
Ansioso porque o tempo vai passando e eu não faço nada. Ansioso porque poderia
ter começado a agir e ainda não comecei. Ansioso porque tenho que agir. .
.
Certa vez fiquei dois dias
sentado na mesma posição sem conseguir fazer nada. E quando eu digo nada, é
nada mesmo: não saí de cada, não fui ao banheiro, não comi, não bebi água,
não consegui atender ao telefone. Eu sabia que teria que fazer alguma coisa,
mas estava ansioso demais porque não conseguia fazer nada e esta ansiedade me
deixava mais "congelado" ainda. Numa luta muito grande, consegui dar o
primeiro passo - me levantei - e a partir daí a cadeia se quebrou, tornando
possível que eu fizesse outras coisas.
É difícil descrever o que
acontece. As palavras expressam muito pouco do tormento que sinto quando isto
acontece, mesmo que por um período de poucas horas.
Outra coisa que é difícil
para mim é dormir e acordar. Tenho insônia sempre e não ouço o despertador,
por mais alto que eu o coloque. Não sou daqueles que ouve o despertador, dá um
tapa e volta a dormir. Eu simplesmente não o ouço e quando eu acordo, horas
depois da hora desejada, vejo que estava tocando o tempo todo e me pergunto como
consegui não ouvi-lo. E após uma pequena e atormentada noite de sono, passo o
dia com uma sensação constante de cansaço. É óbvio que isto me leva a um
baixo desempenho e ao problema de ansiedade que já descrevi que por sua vez me
faz dormir pouco e mal, num ciclo que não se quebra.
Durante certas ocasiões
(férias, feriados)consigo por algumas coisas em dia e me concentro em minha
organização pessoal. Isto sempre me ajuda a me controlar: horários fixos,
atividades fixas, tudo fixo. Quando consigo me organizar e me manter organizado
por um tempo, consigo controlar a minha ansiedade e vivo melhor. Só não
consigo me concentrar em uma coisa só, continuo "fugindo para o mundo da
lua", esquecendo de pagar contas, perdendo facilmente o interesse pelo que
estou fazendo, me atrasando e esquecendo compromissos.
Tudo que descrevi me leva a ter
uma grande dificuldade de me abrir com qualquer pessoa e ter uma tendência de
sentir pena de mim mesmo, fazendo-me esquecer das pessoas que estão em volta.
Graças a uma auto-vigilância, tenho conseguido nos últimos anos me controlar
neste aspecto e não pensar só em mim mesmo.
A minha falta completa de
organização, minha ansiedade, falta de concentração, falta de sono, e
algumas vezes falta de energia me tornam um profissional difícil de lidar e
muitas vezes "explodo" com algumas pessoas o trabalho, especialmente
com aquelas que me pressiona muito. Observei que só "explodo" quando
existe uma falha no projeto em discussão, um problema na coordenação do
projeto. Mas quando exponho estas falhas de forma irada na realidade estou
mascarando também minha inabilidade de organizar qualquer coisa. Não faço
isso de forma consciente - na realidade quando estou irado não faço nada de
forma consciente, somente impulsivamente.
Pensei que tivesse algum
problema mental, pois me recordo que quando era pequeno, 3 ou 4 anos de idade
fiz vários testes - me lembro nitidamente de alguns e da sala em que os testes
eram feitos - e esta falta de concentração, esta ansiedade existem desde
aquela época. Vem também desde a minha infância a dificuldade de lidar com
pessoas e, por outro lado, a facilidade de me refugiar no meu mundo
particular.
Pensando no meu mundo
particular, tenho visitado ele muito menos vezes do que na minha infância, mas
quando isto acontece, a ansiedade torna quase impossível sair dele. Eu chamo de
meu mundo o mundo dos meus pensamentos, quando me desligo de qualquer estímulo
externo para pensar.
Posso permanecer horas pensando
sem que isto me canse ou me chateie. A maior parte de meus projetos de sucesso
surgiram de períodos como estes, onde não anoto nada, não falo nada, apenas
crio. E quando termino não tenho somente uma idéia, mas um projeto
meticulosamente pensado e testado em minha cabeça.
Não me incomoda me desligar do
mundo para algumas vezes criar coisas práticas, mas a verdade é que poucas
vezes este desligamento gera projetos que possam ser usados no meu
trabalho.
…estou muito triste comigo
mesmo ultimamente, vendo que não consigo manter contato com as pessoas: não
consigo manter um contato regular com meus amigos de colégio, meus colegas de
faculdade, meus ex-colegas de emprego, e outros amigos, parentes, pessoas de
quem eu gosto. Me desligo muito fácil das pessoas. Acho que minha família e
minha noiva são as únicas exceções.
Nunca fiz Psicoterapia, não
tenho nenhuma doença detectada (os testes que fiz na infância não acusaram
nada), minha saúde, apesar do Stress, está boa. O meu pai, quando vivo,
apresentava os mesmos problemas. Não era muito evidente, mas ao contar para
minha irmã e minha mãe como eu sempre me senti ela me contou que meu pai
reclamava das mesmas coisas que eu estava reclamando, exatamente como eu
descrevia.
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