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1) Trata-se de um distúrbio
recente ou um modismo diagnóstico?
O Transtorno do Déficit de Atenção
com ou sem Hiperatividade
foi descrito pela
primeira vez, em 1902, e já recebeu diversas denominações ao longo de todos
esses anos. As mais conhecidas foram: Síndrome da criança Hiperativa, lesão
cerebral mínima, disfunção cerebral mínima, transtorno hipercinético.
Em 1994, o termo oficialmente
adotado pela Associação Americana de Psiquiatria foi o de Transtorno do
Déficit de Atenção/Hiperatividade, significando a barra inclinada que o
problema pode ocorrer com ou sem o componente de hiperatividade, outrora
considerado o sintoma mais importante e definidor do quadro.
2) Problema raro ou comum?
Os diversos estudos realizados
têm demonstrado que esse transtorno ocorre em cerca de 3 a 7% das crianças,
sendo aproximadamente 3 vezes mais freqüente em meninos que em meninas. Nas
meninas prevalece o tipo clínico em que predomina a desatenção, sem
evidência importante da hiperatividade. Na idade adulta, foi encontrado em 4%
das pessoas.
O Transtorno do Déficit de Atenção
com ou sem Hiperatividade
é considerado o
distúrbio infantil mais comum e é tido como a principal causa de fracasso
escolar.
3) Não se trata de um problema
restrito à infância?
Até a poucos anos achava-se
que no final da adolescência os sintomas do Transtorno do Déficit de Atenção
iriam regredindo com ou sem
tratamento, e que o adulto ficaria livre das características que apresentava
quando criança.
Entretanto as pesquisas mais
recentes provaram que o distúrbio tende a permanecer através da adolescência
e continuar na idade adulta. A questão é que as características do distúrbio
vão revelando aparências diferentes de acordo com as diversas faixas de idade.
É fácil entender, por exemplo, que uma criança hiperativa corre de um lado
para outro, está constantemente pulando, mais do que as outras crianças da
mesma idade, mas o adolescente e o adulto hiperativos irão exteriorizar a mesma
hiperatividade de forma diferente, mais de acordo com as suas respectivas idades.
4) Como conceituar o Transtorno do Déficit de Atenção?
O Transtorno do Déficit de Atenção
com ou sem Hiperatividade
é um distúrbio
habitualmente de longa duração (freqüentemente se estendendo até a idade
adulta, como acabamos de dizer) que se manifesta por três grupos de sintomas:
desatenção, hiperatividade e impulsividade.
É evidente que esses sintomas
são inespecíficos, podendo ser encontrados em uma grande variedade de outros
transtornos, como também fazendo parte da vida psíquica normal, em alguns
momentos.
Na verdade, a Hiperatividade
não é
simplesmente uma deficiência de atenção, como a denominação pode fazer
pensar. Caracteriza-se também como um distúrbio do desenvolvimento adequado da
inibição e da modulação das respostas, melhor dizendo, do autocontrole.
5) Se as características do
Déficit de Atenção
também existem nas pessoas normais, e se essas mesmas características
também podem ocorrer em outros distúrbios, como identificá-lo então?
Em primeiro lugar, é
necessário que os sinais de desatenção, hiperatividade e impulsividade sejam
mais intensos que os apresentados pelas pessoas da mesma idade e que sejam
persistentes. A pessoa deve apresentar essas características constantemente,
como um padrão de comportamento delas. Quem convive com essas pessoas costumam
dizer que elas sempre foram assim.
Em segundo lugar, é
necessário para se falar em Déficit de Atenção que esses sintomas tenham aparecido desde a
infância. Quer dizer, se alguém passou a apresentar essas características
depois de adolescente ou adulto, não se trata de Déficit de Atenção, mas provavelmente de
algum outro transtorno.
Além disso, é necessário que
esses sintomas tenham uma intensidade e constância tal que existe já um
comprometimento do seu funcionamento em mais de uma área de atuação, como
casa, escola, trabalho, vida social, etc.
Por último, para se fazer o
diagnóstico de Déficit de Atenção exige-se que sejam excluídas outras causas capazes de
ocasionar essas características.
6) Como se apresenta uma
criança com Hiperatividade?
Sinais de desatenção:
a) A criança tem pouca
atenção, e com freqüência comete erros em trabalhos escolares e provas por
puro descuido. Examinando a prova que ela mesma fez, a criança é capaz de
apontar os próprios erros e até se aborrecer por ter cometido erros tão tolos.
Ou a professora se espantar com os erros cometidos em matéria que a criança
comprovadamente conhece.
b) Nas aulas é comum perder a
atenção no que o professor está falando, e ficar pensando em coisas bem
distantes das aulas. Costuma dizer que "voa" ou "viaja" nas
aulas. Essa mesma perda constante de concentração é que dificulta a leitura
de um livro recomendado pela escola. Com freqüência precisa voltar a ler do
início da página pois é como se tivesse dado um branco no momento em que
estava lendo um trecho.
c) Tem grande dificuldade de
fazer os deveres de casa sozinha, porque se distrai a todo instante, interrompe,
leva muito tempo, fazendo desses momentos verdadeiras batalhas entre mãe e
filho.
d) Outras vezes quando está
fazendo algo que é do seu interesse, como ver TV, jogar videogame, etc., é
capaz de ficar tão concentrada que parece não escutar se é chamada. Isso quer
dizer que a criança com Transtorno do Déficit de Atenção com ou sem
Hiperatividade
é capaz de ficar hiper-concentrada (se estiver
interessada) ou então ficar desconcentrada (quando não tiver tanto interesse).
e) É facilmente distraída
daquilo que está fazendo. Por exemplo, basta que alguém chame seu nome ou que
ocorra um ruído diferente para se perca quase completamente da tarefa que
estavam realizando, em especial se era uma leitura ou aula.
f) É em geral muito
desorganizada com seus pertences e na maneira com tenta fazer as coisas. Por
isso está freqüentemente perdendo objetos, como lápis, livros, etc.
g) Algumas crianças com Transtorno do Déficit de Atenção
com ou semHiperatividade
têm grande dificuldade em dar a partida para realizar qualquer coisa, parecem
lentas, sem energia. Já outras começam as coisas rapidamente, mas também logo
abandonam o que começaram para fazer uma segunda atividade, que por sua vez
dificilmente será completada.
h) Quando se pede a uma
criança com Transtorno do Déficit de Atenção com ou semHiperatividade que efetue 2 ou 3 tarefas ao mesmo tempo, ou que transmita um
recado, com maior freqüência haverá esquecimento das tarefas solicitadas.
Sinais de hiperatividade e
impulsividade:
a) É muito ativa, inquieta,
tem dificuldade de ficar sentada na sala de aula. Quando é
forçada a ficar sentada, fica se revirando na cadeira o tempo todo.
b) Fala muito, é barulhenta, a
ponto de perturbar a classe e ser freqüentemente advertida pelas professoras.
c) Não consegue esperar sua
vez, seja em jogos, filas, etc. Fala quando não deve, interrompe as pessoas,
responde sem ouvir a pergunta por inteiro. Muitas vezes revela falta de tato,
dizendo coisas inadequadas, que saem de supetão.
d) Algumas têm pouca noção
de perigo, por isso sobem em locais perigosos, se machucam com freqüência.
e) Costumam ser estabanadas,
derrubando os objetos por onde passam.
f) Tem baixa tolerância à
frustração. Insistentes, não suportam uma resposta negativa.
7) Como se apresenta um
adolescente com Déficit de Atenção ?
As características do
adolescente com Déficit de Atenção são semelhantes às das crianças com o mesmo problema,
apenas com diferenças decorrentes do próprio amadurecimento, da faixa de vida.
Vejamos apenas algumas particularidades:
a) Tem dificuldade de ficar
concentrado nas aulas, em leituras, em especial se não for do seu interesse.
Certamente que qualquer pessoa se não tiver interesse vai ter maior dificuldade
de atenção, só que na pessoa com Hiperatividade
isso é bem mais acentuado.
b) Tem dificuldade em completar
tarefas. Alguns desses adolescentes iniciam várias atividades, mas completam
poucas.
c) Habitualmente é
desorganizado, esquece compromissos, trabalhos, ou então não sabe onde guardou
chaves, óculos, livros, etc.
d) Costuma fazer várias coisas
ao mesmo tempo, mas dificilmente completa alguma.
e) É impaciente e inquieto,
mas não tanto hiperativo como quando era criança.
f) Dirige motos ou carros de
forma perigosa, expondo-se freqüentemente a acidentes.
g) Faz uso de álcool ou
drogas. Em geral os adolescentes com Déficit de Atenção procuram as drogas porque se sentem
passageiramente melhor sob o efeito delas, ou seja, a droga é uma forma de
automedicação, embora inadequada.
8) E um adulto com
Hiperatividade
que
outras particularidades apresenta?
Os traços são semelhantes aos
da criança e do adolescente, com as modificações próprias da idade. Vejamos
apenas algumas particularidades:
a) É desatento, desconcentrado,
e facilmente distraído. Alguns desses adultos jamais conseguiram ler um livro
inteiro. Outros até conseguem, mas só quando o assunto é de muito interesse.
b) É pouco persistente no que
faz, tendo dificuldade em completar suas tarefas.
c) Seu estilo de vida é
desorganizado, esquece de pagar contas em dia, sua mesa de trabalho é caótica,
esquece compromissos. Sente-se confuso quando tem muitas coisas a fazer, não
conseguindo estabelecer prioridades.
d) Atrasa-se com muita
freqüência.
e) É inquieto, tem dificuldade
em parar, e às vezes quando está em férias procura mais coisas para fazer.
f) Fala muito, monopoliza as
conversas. Nem sempre é bom ouvinte.
g) Impaciente, toma decisões
precipitadas, e muitas vezes se arrepende logo em seguida. Impulsivo também
para dirigir. Muda freqüentemente de trabalho, relacionamentos ou residência.
h) É muito emotivo, tem
freqüentes oscilações do humor, e se irrita com facilidade.
i) No trabalho tem um
rendimento abaixo do que seria capaz.
9) O diagnóstico, como é
feito?
O diagnóstico desse transtorno
é clínico. Faz-se necessário colher uma história detalhada com
uma ou mais pessoas significativas. No caso de crianças e adolescentes, as
informações de pais e professores são inestimáveis. Em adultos, parentes
próximos e cônjuges ajudam muito. As agendas de anotações escolares devem
ser vistas, sempre que possível.
Uma história familiar deve
apontar a existência de casos similares nos parentes próximos, muitas vezes em
um dos pais.
Escalas de avaliação, com
pontuação para os sintomas, são freqüentemente úteis para dirigir a
investigação diagnóstica.
10) O que causa o Transtorno do Déficit de Atenção, ou
seja, qual sua etiologia?
O fator hereditário é o mais
importante. Múltiplos genes estariam envolvidos, o que justificaria a
heterogeneidade do quadro clinico.
O córtex pré-frontal direito
é ligeiramente menor nas pessoas afetadas. Do ponto de vista bioquímico, a
hipótese predominante é de uma diminuição funcional da dopamina, e também
da noradrenalina, nessas áreas.
11) Uma questão prática muito
importante é que com muita freqüência ao Transtorno de Hiperatividade
se associam outros transtornos
(a isso se denomina comorbidade).
Uma característica marcante do
Transtorno do Déficit de Atenção é sua alta taxa de comorbidade. Em crianças, calcula-se que mais da
metade dos casos ocorrem acompanhados de outros transtornos. Em adultos,
estima-se que esse índice seja ainda maior.
Na infância, as condições
comórbidas mais comuns são: transtornos específicos do aprendizado,
transtornos do comportamento, transtornos ansiosos, transtornos depressivos, e
tiques.
Em adolescentes, além desses
transtornos citados, surge o abuso de drogas.
Em adultos são também comuns
os transtornos ansiosos, os transtornos depressivos, o abuso de drogas (incluindo
o álcool e tranqüilizantes), transtornos do apetite e do sono.
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